PT 2013: Caminhar com o novo tempo!
"Tenho dito e repito aqui: são quatro grandes monopólios ou
oligopólios que urge desmontar: o monopólio do dinheiro, controlado pelo
capital financeiro; o monopólio da terra, em mãos dos latifundiários que se
opõem à reforma agrária; o monopólio do voto, garantido pelo financiamento
privado e o poder econômico; e o monopólio da opinião e da informação, dominado
pelos barões da mídia". Rui Falcão
O processo de renovação das direções partidárias, PED 2013, ocorre
na rica conjuntura inaugurada pelas manifestações de ruas que varrem a quebrada
Europa neoliberal, precedidas pela “Primavera árabe”, pelo Ocuppy Wall Street
(a partir dos EUA). Junte a esses, os movimentos contrários às medidas de
austeridade na Inglaterra, em 2011, cujo estopim foi o assassinato do jovem
negro Mark Duggan, pela polícia. Lembremo-nos também dos protestos dos jovens
na periferia de Paris, em 2006, sem deixar de registrar atos e protestos pela
China, Rússia, México, Brasil etc.
Essa é atmosfera que pode fazer com que a renovação das direções
partidárias seja algo mais do que a mera substituição de lideranças,
reposicionamento de tendências e redefinição de cargos.
Ainda é difícil avaliar o impacto disso na aprovação dos governos
federal, dos estaduais e municipais. Nem mesmo nas eleições de 2014. Duas
advertências cabem aqui: a) o Brasil não será o mesmo depois desses protestos;
b) 2014 não será a reedição de 2006: muito terá de ser feito para que logremos
vitórias políticas, ideológicas e eleitorais.
No restante do mundo, o mote é o enfrentamento ao neoliberalismo.
Aqui, registra-se o limite do pós-neoliberalismo.
Da falência do neoliberalismo, aos limites do pós-neoliberalismo
Esses protestos que ocorrem no Brasil, tem natureza distinta dos
que motivam, principalmente nos EUA e Europa, a sociedade ir às ruas. O Brasil
e a América Latina, de um modo geral, capitaneiam um polo de contraposição à
hegemonia neoliberal, obstaculizando os mecanismos e medidas práticas adotadas
pelos governos de direita dirigidos pelo capital financeiro. A dependência
financeira, tecnológica e comercial com os Estados Unidos, ainda que não
desfeita, é muito menor que no período FHC. Em contraposição à ALCA, que foi
enterrada, o MERCOSUL foi fortalecido, além de criadas novas relações na
América Latina e Caribe, como a UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) e a
CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe).
Para quem só vê a “árvore” e não enxerga a “floresta”, os
protestos no Brasil se originaram pela insatisfação da população com os desvios
de recursos públicos e com a responsabilização do governo federal por
conivência, leniência e até cumplicidade com isso. No entanto, isso foi apenas
uma das muitas atribuições de significados que, às toneladas, foram despejadas
nos meios de comunicação tradicionais e na internet, em particular.
O caráter plural, caleidoscópico, difuso e, porque não dizer,
confuso dos múltiplos protestos dentro dos protestos tem, sim, uma
racionalidade, mesmo que disso não tenham consciência os milhões que foram às
ruas.
O neoliberalismo jogou milhões e milhões de pessoas no mundo
inteiro, nas ruas, contra sua racionalidade darwinista social. O
pós-neoliberalismo que ajudamos a construir no Brasil nos últimos 10 anos
incentivou parte significativa da massa de manifestantes a ir às ruas, primeiro
pelo direito social ao transporte público decente, e depois para uma miríade de
reivindicações. A mídia de direita interveio e logrou uma vitória: abriu as
portas para um repúdio generalizado aos poderes da República: contra os
governos nos três níveis, contra os parlamentos e contra o judiciário, este
ainda que em menor escala; tudo isso em franca ameaça às nossas custosas
conquistas democráticas. Disso nem mesmo escaparam a própria imprensa, empresas
privadas, partidos à direita e à esquerda, movimentos sociais e sindicais
históricos.
A direita tentou “udenizar” as manifestações. No máximo,
conseguiram mais confundir do que esclarecer. As manifestações populares que
ocorreram no Brasil são a expressão de décadas de lutas do povo brasileiro pela
liberdade e pela inclusão social.
A esquerda, inclusive a que faz oposição ao PT e ao governo
federal, custou a reagir. Fato que se inicia na defensiva, pela linha da
autodefesa contra as agressões fascistas e depois se desdobra em ações comuns,
com plataformas de reinvindicações consolidadas.
Enfim, depois do primeiro espasmo dos protestos, otimizados pela
repressão e pela Copa das Confederações, passaremos agora para a consolidação
das pautas e pela disputa qualificada e respeitosa da hegemonia das mesmas.
Atitudes para um PT à altura desse novo tempo
1.
Defender o legado petista, desses 35 anos de existência, implica
valorizar toda a trajetória de nossas ações na sociedade e não apenas nossos
governos ou atuações parlamentares.
2.
Nossos governos, municipais e estaduais, com raríssimas exceções,
e os dez anos de Lula/Dilma devem ser defendidos pela simples verdade de que
foram e são fundamentais para os avanços políticos, culturais, econômicos e
sociais em nosso país. Eleger o primeiro operário e a primeira mulher
presidentes da República, na história do país, teve e tem um significado
estrutural. Confrontar a receita recessiva e privatista, ao mesmo tempo em que
se consolidou uma inédita rede de proteção social, isso colocou o Brasil na
vanguarda do enfrentamento ao neoliberalismo.
3.
Nesse momento dois parecem ser os novos desafios para nosso
projeto: a) Manter uma guinada na economia frente à crise internacional e as
chantagens do sistema financeiro e b) Alterar o sistema político do país que
engessa o governo sob uma maioria conservadora eleita por um sistema eleitoral
distorcido. São dois desafios imensos, o primeiro já está na pauta, sendo
atacado sistematicamente por nossos adversários e o segundo ainda parece
distante de uma possibilidade de aprovação no Congresso. E isso exige uma
mudança estrutural do Estado no Brasil: que seja mais transparente e permeável
à participação popular.
4.
Qualificar a forma e o conteúdo das necessárias comparações de
nossos governos, com os neoliberais. Esgota-se o poder de que a simples
demonstração de números e estatísticas teria o condão de convencer as massas da
superioridade de nosso projeto.
5.
Incentivar a auto-organização das massas beneficiárias de nossas
várias iniciativas de governos (em todos os níveis) é outra tarefa essencial.
Centenas de milhares de estudantes com o ProUni, beneficiários do BPC, do Bolsa
Família, das bolsas de estudo para o exterior, dos que usam os créditos da agricultura
familiar, dos programas de compra de alimentos, enfim, de tudo aquilo que é
feito, e que tem a marca, da gestão democrática e popular petista, devem ser
objeto do incentivo à auto-organização. Inclusive para demandar aos governos,
casas parlamentares e poder judiciário.
6.
O PT deve dar um tratamento específico e diferenciado à temática
da corrupção. Mesmo as pesquisas recentes, sobre a percepção da corrupção no
Brasil e no mundo já não armam mais para a luta política. Uma coisa é a
solidariedade a companheiros e companheiras frente às armações e acusações
falsas. Outra é a timidez e o constrangimento de agir perante erros notórios de
petistas numa dada frente institucional. A inação das instâncias dirigentes do
Partido, seja para defender ativamente militantes injustamente atacados, seja
para adotar as medidas disciplinares cabíveis, quando isso se colocar, tem
ajudado a nos empurrar para a vala comum da pior tradição política brasileira.
7.
Ainda que tardiamente, o PT deve ter um plano de comunicação ousado
para dialogar com a sociedade, acerca de seu próprio funcionamento partidário.
É inacreditável que as inéditas decisões de nosso último Congresso, quanto à
composição de nossas instâncias, paridade de gênero, de cotas raciais e de
juventude, de limitação de mandatos parlamentares etc, não tenham sido objeto
de uma campanha política sistemática de diferenciação partidária na sociedade.
8.
É necessário “desestatizar” nossas secretarias e setoriais de
massas, dotando-as de políticas e agendas menos governamentais e mais de luta.
9.
Nossa intervenção nos governos e frentes parlamentares deve ser
objeto de discussão e deliberação coletivas. Respeitando o caráter de ambas as
frentes, suas diversidades e composições plurais, devemos garantir unidade e
perfil petista às práxis de tantos quantos atuam nas referidas frentes. Nossos
governos, por exemplo, devem fazer, com seu estatuto próprio e dentro da
legalidade, toda a disputa ideológica for possível. E isso é muito mais do que
expor números e estatísticas. Isso é legitimar políticas e programas que
distinguem o modo petista de governar. É inaceitável, por exemplo, que o
segundo maior concurso público do mundo, o ENEM, que só perde para o vestibular
da China, e que é realizado com êxito inquestionável, seja apenas objeto da
maledicência pontual pela direita, e não de apologia de nossa capacidade de
gestão sobre o mesmo.
10.
Finalmente, mas não menos importante: as instâncias partidárias,
em todos os níveis, sem prejuízo de pautar e discutir demandas administrativas
devem retomar a prática debate político de conjuntura. Dos municípios, passando
pelos estados e pela instância nacional, o Partido deve transpirar política.
Devemos ter fóruns regulares que acolham não filiados, mas que sejam
simpatizantes. Fóruns com aliados ideológicos à esquerda (sejam entidades,
movimentos sociais ou organizações não partidárias) para a atualização das
análises de conjuntura. E debate público com aliados nas bases de governos com
os quais dividimos responsabilidades.
11.
Tudo isso, só terá êxito se conseguirmos fazer a síntese proposta
por Rui Falcão: "Nossa militância - e aqui incluo dirigentes,
parlamentares, executivos municipais, estaduais e federais - precisam ficar
cada vez mais próximos dos movimentos sociais organizados, que são a linha de
frente e a retaguarda estratégica do nosso projeto nacional.”.
A plataforma para a próxima conjuntura
“As exigências mudam quando mudamos o Brasil.” Dilma Rousseff.
Para superar os limites do chamado pós-neoliberalismo, urge que
apresentemos respostas ao desafio de indicar as fontes de financiamentos das
políticas sociais. Debater com a população a reforma tributária, notadamente a
taxação das grandes fortunas, é um caminho. Pautar o debate dos juros
escorchantes das dívidas públicas e adotar medidas contra esse endividamento é
outra trilha. Por sua vez, a desoneração setorial de tributos só se justifica
se a contrapartida dos setores beneficiados ficar demonstrada.
O escândalo recente envolvendo a Rede Globo de Televisão, sua manobra
para sonegar impostos, envolvendo a compra dos direitos de transmissão da Copa
do Mundo de 2002, sua condenação pela Receita Federal e o “sumiço” do processo
na própria Receita, reabrem outra trilha para garantir o financiamento de
políticas públicas: à otimização do combate aos sonegadores.
Reafirmar os investimentos em áreas sociais tem o efeito de
alavancar a economia. Diversos estudos do IPEA (Instituto de Pesquisas
Econômicas Aplicadas), do Governo Federal, demonstram que os investimentos
nessas políticas são altamente positivos, por acionar a economia e o consumo da
população. Para cada R$1,00 investido em salário de professor, há um retorno
econômico de R$1,20. Para cada R$1,00 investido em bolsa família, há um retorno
de R$1,10 na atividade econômica.
Ao lado desse desafio de indicar e criar fontes de financiamentos
para ampliar e qualificar as políticas sociais, e para investimentos em
infraestrutura, há algo que já destacamentos anteriormente: é inadiável fazer a
reforma democrática do estado. E isso não será conseguido sem forte
pressão social. Um estado que esteja à altura dos avanços econômicos e sociais
pelos quais lutamos deve ser bem diferente daquele que herdamos das sucessivas
“modernizações conservadoras” ocorridas em nosso país desde a República Velha.
E muito mais diferente do que esse estado mínimo, resultado da ideologia
neoliberal.
Basta pensar na grandiosidade do PAC e das políticas de proteção
social: o quanto de tempo se perde e o quanto se atrasa, porque temos um Estado
hostil ao conceito de desenvolvimento com distribuição de renda.
Nossa plataforma para essa rica conjuntura foi bem sintetizada
pela fala de Rui Falcão, transcrita em epígrafe desta tese.
É preciso dar concretude a ela:
a.
O monopólio do dinheiro: isso significa conquistar a taxação das
grandes fortunas, como ponto de partida.
b.
O monopólio da terra e a hegemonia do latifúndio: reforma agrária
é condição para a soberania nacional.
c.
O monopólio do voto e do torniquete do financiamento privado da
política: reforma política com participação popular, que aponte para a
transparência e requalificação da atividade de governo e de legislar.
d.
O monopólio das comunicações: apontado para a renovação, em bases
democráticas, das concessões em rádio difusão; o controle social (que não se
confunde com controle de conteúdo) que fixe limites ao uso irresponsável da
mídia; a democratização na distribuição das verbas públicas para os veículos em
geral.
Além desses pontos, urge retomar a reforma urbana, a mobilização
para consolidar o financiamento da educação e da saúde; a segurança pública, a
partir da premissa da desmilitarização das PMs; o aprofundamento da pauta dos
direitos humanos e civis, como meios indispensáveis à proteção das populações
vulneráveis.
Esta última é essencial: as atitudes conservadoras, de direita e
regressivas, sob uma ótica civilizatória, contra os direitos LGBT, de violência
contra as mulheres, de intolerância étnico-racial etc., estão a exigir pronta
reação ideológica. Negligenciar isso é ceder terreno para o obscurantismo
moral, que é uma das marcas ideológicas do liberalismo nos tempos desse
declínio histórico do capitalismo.
Duas disputas ideológicas: 2013: 50 anos do Regime Militar; 2017:
100 anos da revolução russa
Dois acontecimentos devem ter especial atenção das instâncias
partidárias no próximo período das lutas de classes no Brasil e do mundo: o
cinquentenário do golpe de 1964 e, em 2017 o centenário da Revolução Russa.
Planejar e agir sobre esses importantes acontecimentos será uma exigência
indescartável para a luta ideológica que devemos travar na sociedade.
50 anos do golpe de 1964
Se já seria importante disputar o significado do cinquentenário do
golpe militar de 1964, com a emergência do ativismo social deste ano de 2013,
isso se torna agora crucial. Fortalecer na consciência social de massas de
milhões a necessidade das conquistas democráticas que vimos alcançando desde os
tempos da resistência à Ditadura. A polarização irresponsável que veículos de
mídia, partidos neoliberais e “formadores” de opinião remunerados têm fomentado
uma cultura golpista e de direita no país.
O PT, as forças de esquerda e setores democráticos na sociedade
devem se antecipar e preparar uma disputa de significado desse trágico
episódio. Tendo inclusive a convicção de que isso incide na própria disputa
eleitoral de 2014.
O socialismo na contemporaneidade exige o balanço dos 100 anos da
revolução russa
O socialismo do século XXI não vai, por certo, retirar a sua
poesia do passado. Porém, depois do grandioso confronto que tivemos com o
capital, no século XX, no qual fomos derrotados, é necessário que façamos um profundo
balanço dessa experiência. Não no sentido do tradicional “inventário das
misérias”, mas na perspectiva de renovação de nosso ideal societário.
E o centenário da Revolução Russa será objeto de intensa disputa.
À direita e à esquerda. A próxima direção do PT deve assumir parte da
responsabilidade de construção, não apenas às vésperas das festividades, de
fóruns diversificados para o balanço dessa experiência que é integra e
integrará, ainda que criticamente, nosso instrumental político e teórico de formulação
sobre o futuro.
Conclusão:
O PT é a soma de sua práxis social. Nas ruas, nos locais de
trabalho, no campo e na cidade. Nas universidades, na cultura, na disputa
ideológica. No parlamento, nas prefeituras, governos de estados e na
presidência da República.
Ao longo desses 35 anos de existência, nosso legado é muito
positivo. Abrimos caminho para grandes conquistas sociais, nos terrenos da
distribuição de renda, da transparência, na inversão das prioridades de
investimentos, inclusão social, mobilidade social positiva. Tudo isso se
enraiza na sociedade, com nomes, conceitos, emblemas e símbolos claramente
petistas e de esquerda.
Somos herdeiros da luta pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita;
pela Reforma Agrária e a Urbana; pela educação inclusiva; pelo SUS, pela
reconstrução da UNE; pela construção do sindicalismo livre e combativo.
Estivemos à frente das lutas contra as privatizações, contra a corrupção,
contra agiotagem financeira internacional.
E, nos governos deixamos marcas muito profundas. Os nomes de
programas e políticas de nossos governos revelam a profundidade do que
alcançamos. Bolsa-família; Minha Casa, Minha Vida; Pro-Uni, PAA, Luz para
Todos; PAC; Ciência sem fronteiras e por aí vai. Ministérios das mulheres, de
combate ao racismo e dos direitos humanos, das Cidades. Prioridade inédita para
políticas de juventude.
Mas, há muito o que fazer. Isso exigirá rupturas, superações e
avanços conflituosos. Com apoio popular avançaremos. Essa é a nossa
determinação.
Brasil 13 de julho de 2013
PARTIDO É PARA TODOS NA LUTA.
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